Por que Ouvir e Contar histórias de idosos abrigados?

Sabe-se que, ainda hoje, muitos estudos têm priorizado aspectos relacionados apenas à funcionalidade do sujeito. Nestas abordagens, os aspectos orgânicos e físicos são enfatizados, em detrimento da atenção às subjetividades, à existência de um mundo interno, do qual emergem as emoções e sentimentos que possibilitam a compreensão do sujeito, a partir de seu cotidiano e dos diferentes âmbitos em que ele atua e se relaciona socialmente: trabalho, lazer, moradia, entre outros. O projeto “Ouvir e Contar– Espetáculos Itinerantes” visa desenvolver ações de impacto humanitário, educacional e cultural. É desenvolvido nos hospitais, escolas de periferia, abrigos e instituições asilares de Curitiba e Região Metropolitana, em locais de grande carência em termos de ações que transformem os momentos de internação hospitalar ou asilar num ambiente mais humano, e que estimulem a formação de leitores. Para que seja possível este trabalho, será ministrado um processo de capacitação de voluntários, composto por palestras e Oficinas de Capacitação na Arte de Ouvir e Contar Histórias.

O Instituto História Viva foi criado com o objetivo de trazer alegria e minimizar as dificuldades do período de internação nos hospitais, de abrigamento de crianças sob o poder do estado e de idosos asilados, e proporcionar o acesso a literatura junto a crianças e jovens carentes em escolas públicas. Através da arte de contar histórias, a entidade leva entretenimento, cultura e muita informação educacional, possibilitando momentos de criatividade, imaginação e transformação.

Levar cultura é possibilitar o exercício de cidadania, mesmo para pacientes e asilados já tão comprometidos por suas condições físicas, materiais e psicológicas. O constante desenvolvimento de atividades literárias, plásticas, cênicas e lúdicas se faz necessário, como alternativa ao triste ambiente hospitalar e de abandono dos asilos em que se encontram alguns dos públicos atendidos.

Numa sociedade onde pais e mães trabalham fora, onde jovens passam horas na Internet, onde os programas dos avós com os netos são cinema, lanchonetes ou um filme da locadora, onde as famílias não se reúnem para jantar, pois a televisão é a maior companheira da família, ainda há lugar para contar histórias? Sim. Basta reunir um grupo de crianças, jovens ou adultos num local agradável em torno de um contador de histórias para que se crie um clima de fogueira ou de galpão como faziam nossos antepassados e ainda se sinta um aconchego de colo de avó ou embalo de mãe, construindo e gerando cultura.

Adultos e crianças geralmente sentem-se mais atraídos por um texto, e ao que ele transmite, quando os ouvem do que quando os leem. Mas para isto é preciso que seja apresentado de uma forma envolvente, que prenda o ouvinte ao texto. Esse encantamento estabelecido pelo Contador de Histórias no ”Era uma vez…”, cria o clima da história para que cada um possa construir o seu cenário, visualizar o seu próprio Lobo Mau, vestir a Princesa, construir o seu próprio castelo e assim descobrir as dificuldades e conflitos do mundo e a busca de soluções através dos problemas que vão sendo enfrentados, solucionados ou não, pelas personagens das histórias.

A figura de um contador de histórias sempre será uma figura mágica, encantadora e que nos transporta a outras realidades. O tempo passa e os narradores de histórias vão se transformando e se distinguindo dos narradores tradicionais, no entanto a magia do “Era uma Vez…”, não perde a amplitude imaginária que exerce sobre a plateia.

A criança ao aprender e perceber valores com um idoso ou pessoas que já atingiram uma posição de destaque em sua carreira de vida adquire respeito por essa sabedoria, começando então a prestar a atenção e a admirar o outro de forma humilde e interessada, valorizando a tradição e desejando para si esta experiência de vida enriquecida pelos anos. O ancião ou pessoa inspiradora, por sua vez, ao ensinar, renova seu conhecimento ao percebê-lo através dos olhos infantis, revive as boas lembranças, consolida sua autoestima e faz valer toda a sua trajetória repleta de ensinamentos a oferecer.

No contato entre velhos e jovens verifica-se um enriquecimento mútuo: os idosos melhoram a atenção, a memória, a saúde e o humor; e os jovens ganham em paciência, em humildade e enriquece a sua cultura. Através dessa troca o conflito pode transformar-se em parceria e a intolerância dar lugar à integração para novos passos mais construtivos.

A situação que se espera alcançar é uma melhoria no rendimento escolar das crianças e jovens atendidos, aumento da procura deles a biblioteca, amenizar o ciclo de violência e um enriquecimento de valores em virtude do contato com as experiências de vida dos mais velhos.